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domingo

"Land of the Dead": a revolução zombie


Ano: 2005
Realização: George A. Romero
Argumento: George A. Romero
Fotografia: Miroslaw Baszak
Montagem: Michael Doherty
Música: Reinhold Heil e Johnny Klimek
Elenco: Simon Baker, Asia Argento, John Leguizamo, Robert Joy, Eugene Clark e Dennis Hopper
IMDB

O regresso do Profeta

Finalmente, um dos mestres incontestáveis do filme de terror está de volta! Desde o final dos anos 80 que George A. Romero era vítima de uma travessia no deserto sem precedentes. O autor essencial de filmes fantásticos como a sua Trilogia dos Mortos-vivos, claro, mas também obras como “The Crazies” (1973), “Martin” (1977), “Knightriders” (1981), “Creepshow” (1982) ou “Monkey Shines” (1988), tinha sem dúvida perdido o comboio dos anos 90 e estava em risco de perder o do novo milénio. O fracasso comercial injusto do seu excelente “Monkey Shines” em 1988 marcou o início do declínio de uma carreira até aqui exemplar em termos de integridade e qualidade artística. Declínio porque iria tornar-se cada vez mais difícil para Romero arranjar financiamentos para os seus projectos inovadores e por conseguinte pouco comerciais.

Contudo, Romero associa-se rapidamente ao mestre do giallo Dario Argento, em 1990, após “Dawn of the Dead” em 1978, mas agora para uma co-realização num filme dividido em duas histórias distintas, inspiradas de Edgar Allan Poe, chamado “Two Evil Eyes”. O resultado seria infelizmente um filme indigno do talento destes dois cineastas, com um Dario Argento também no princípio de uma grave crise artística. Três anos mais tarde, Romero adapta um livro do seu amigo Stephen King, “The Dark Half”, um filme que também passará um pouco despercebido com um resultado relativamente abaixo das capacidades do realizador.

A partir daí, Romero vai sobreviver do dinheiro que ganha a desenvolver projectos e argumentos que nunca acabarão por ter luz verde. Farto dessa situação e após sete anos de inactividade, o realizador consegue um orçamento de cerca de 5 milhões de dólares para dirigir “Bruiser”, a história de um homem cumpridor das regras impostas pela sociedade mas cuja repressão origina inexplicavelmente que a sua cara desapareça e seja substituída por uma simples máscara branca, levando-o para o caminho de uma vingança sangrenta. Filme que ninguém viu, “Bruiser” até desagradou aos mais ferventes defensores do cineasta. Simplesmente impedido de filmar pelo sistema perverso de Hollywood, Romero parecia infelizmente vítima de reforma antecipada e definitiva.


Foram então necessários mais cinco anos para Romero provar a todos que continuava vivo, em plena forma artística e ainda com muitas coisas para dizer. Paradoxalmente, foi em parte esse mesmo sistema mercantil e oportunista de Hollywood que permitiu a George Romero voltar a realizar mais um segmento da sua saga dos zombies. O sucesso nas bilheteiras da péssima e ridícula saga “Resident Evil”, do excelente “28 Days Later” de Danny Boyle e sobretudo do surpreendentemente bom remake “Dawn of the Dead” de Zack Snyder, fez com que os produtores ávidos de proveito garantido vislumbrassem finalmente o potencial comercial do regresso do génio de Pittsburgh.

Na realidade, Romero não ficou à espera dos estúdios para pensar num novo episódio que prolongasse a sua Trilogia. Com um filme por década, sempre foi vontade do realizador fazer um novo filme de zombies durante os anos 90 mas faltava-lhe uma ideia inovadora, um novo ângulo de ataque que lhe permitisse ir mais longe nas suas temáticas e evitar a repetição. Só em 2001 é que Romero acaba um primeiro argumento e, pouco antes dos atentados do 11 de Setembro, começa a enviá-lo para vários produtores.

Evidentemente, quando surgem os acontecimentos que sabemos, Romero perde as hipóteses que tinha de conseguir um financiamento, sendo que Hollywood procurava na altura quase exclusivamente divertimentos familiares. Entretanto, a partir de 2003, o regresso do filme de terror puro e duro torna-se efectivo com o estrondoso sucesso do remake de “The Texas Chainsaw Massacre” de Marcus Nispel. Definitivamente liberto da ironia e da condescendência pós-Scream que pareciam ter enterrado o género, o cinema de terror renasce das suas cinzas e, com o já referido sucesso de “Dawn of the Dead” versão 2004, já há lugar para um novo capítulo da saga dos mortos-vivos de George Romero. Lógico que o autor fez entretanto evoluir o seu argumento, incorporando a própria evolução da sociedade americana pós-11 de Setembro e dando assim muito mais densidade à história deste muito aguardado “Land of the Dead”.

Um mundo perdido

“Land of the Dead” descreve portanto um mundo desta vez entregue por completo aos zombies. Numa terra devastada e ao abandono, um resto de humanidade sobrevive numa cidade fortificada onde Kaufman (Dennis Hopper), auto-proclamado chefe máximo da população e investido de todos os poderes, utiliza um bando de mercenários para ir todas as noites fora da cidade saquear os stocks de comida, medicamentos, álcool e outros bens necessários à sobrevivência e bem-estar dos habitantes da cidade. Todavia, não todos os habitantes, apenas aqueles que vivem na torre de Kaufman, um complexo ultra-moderno onde uma elite pode usufruir de uma vida idílica com apartamentos de luxo e um centro comercial gigantesco, perfeitamente alheios ao caos que assombra o planeta. Mas este microcosmo está prestes a ser posto em perigo quando os zombies começam a desenvolver uma consciência e a organizar-se, decididos a reclamar o que é deles.


O que nos maravilha antes de tudo com “Land of the Dead”, é reencontrarmos um George Romero que não perdeu nada do seu talento e que, apesar de se tratar de um filme de estúdio (aqui a Universal), não sacrifica em nada a sua visão de cineasta irreverente e visionário.

Volvidos 20 anos desde o último filme da saga, “Day of the Dead”, seria então Romero capaz de evoluir e teria o estúdio deixado o cineasta expressar-se sem o obrigar a fazer deste quarto filme uma espécie de remake dos seus filmes anteriores? Felizmente, Romero conseguiu evitar todas as ratoeiras que poderiam estar à espera dele. Neste aspecto, a sua saga de zombies ganha uma nova dimensão com “Land of the Dead” e revela à luz do dia toda a dimensão de um projecto que mantém uma continuidade e uma coerência impressionantes em quase 40 anos de idade. Todas as temáticas deixadas em aberto com “Day of the Dead” encontram aqui um prolongamento, que vai assim servir de base para fazer evoluir a mitologia do morto-vivo criada por Romero.

A temática principal é portanto o facto dos zombies pouco a pouco ganharem inteligência, como a personagem Bub em “Day of the Dead”, mas aqui numa escala muito mais avançada, o que permite a Romero introduzir uma vertente nova e muito audaciosa na sua saga. O cineasta opera assim uma surpreendente inversão de valores com o seu filme e, desta vez, o zombie assume um papel muito mais positivo, ganhando uma genuína empatia por parte do espectador. O verdadeiro vilão é nitidamente a personagem Kaufman, transposição directa de George Bush e representação de uns poderes políticos unicamente preocupados com o enriquecimento pessoal, a defesa desses mesmos poderes e a manutenção de um status quo social.

Como todos os americanos, Romero foi fortemente marcado pelos acontecimentos do 11 de Setembro. Enquanto democrata convicto, ver o rumo que tomou o seu país, impulsionado pelas políticas aberrantes do governo Bush, provocou uma grande revolta no cineasta que, consequentemente, fez de “Land of the Dead” o filme mais político da sua saga. Tudo relembra aqui os últimos eventos que marcaram os Estados Unidos e a sua acção política: imagens dos mercenários a maltratarem os zombies, que aparecem aqui como vítimas prisioneiras, à semelhança das imagens assustadoras dos abusos dos soldados americanos sobre os prisioneiros de guerra iraquianos, a torre emblemática de Kaufman ameaçada de destruição por Cholo (John Leguizamo) com o lançamento de mísseis, a representação do fosso existente entre a elite liderada por Kaufman e os que nada têm cujos representantes que decidem ir à luta são eliminados por não serem bons patriotas, a morte de Kaufman com uso intensivo de petróleo ou como o líder supremo morre devido ao objecto da sua cobiça, etc.


Viva la revolución

“Land of the Dead” leva portanto o conceito de metáfora ao seu paroxismo e não há uma imagem ou um acontecimento que não tenha a sua correspondência na América de George Bush. Nesse âmbito, o zombie acaba por ter um duplo simbolismo. O primeiro, revelar-se como o instrumento utilizado pelos poderosos para insuflar essa cultura do medo nas populações, como actualmente nos USA e no mundo em geral, analogia ao terrorismo que agora serve de desculpa para instaurar em todos os recantos das nossas sociedades o máximo de segurança e de controlo, como o Patriot Act nos USA, e quem questionará essas medidas, será portanto visto como anti-patriota e deverá ser silenciado.

Por outro lado, o zombie é representado por Romero como a força de contestação, a figura que operará uma necessária revolução e lembrará da forma mais violenta ao Homem presunçoso e corrompido que já não é a raça superior. Como é costume nos filmes do realizador, o actor de cor representa sempre a personagem anunciadora de mudança, e não é portanto inocente que o único actor negro do filme interprete o líder dos zombies. Big Daddy (Eugene Clark) é então o verdadeiro “herói” do filme e todas as cenas onde marca presença são definitivamente as melhores de “Land of the Dead”.

Verdadeiro Che Guevara, Big Daddy vai ser o primeiro a mostrar sinais de consciência, decidindo a qualquer custo pôr fim de vez à exploração e à dizimação da sua raça. De facto, os mortos-vivos assumem-se aqui como uma verdadeira raça e as cenas onde, num bar, os humanos utilizam-nos para o seu divertimento pessoal ou ainda quando Big Daddy e o seu exército descobrem um campo de tiro ao alvo com zombies, demonstram toda a opressão vivida pelos mortos-vivos. Logo, o levantamento de uma legião de zombies, em direcção a cidade de Kaufman, é inelutável. O apocalipse segundo George Romero está então novamente em marcha.

Outro grande ponto positivo de “Land of the Dead” é a evolução de Romero em termos técnicos, sem abdicar um segundo da sua maneira de encarar o cinema. Em 20 anos, o cinema evoluiu e Romero não ficou de forma nenhuma preso ao passado. O início do filme é o reflexo disso com uma entrada em plano-sequência do melhor efeito através de travellings e movimentos de grua plenos de mestria e visualmente poderosos. A estilização das imagens também poderá surpreender os aficionados do realizador e da sua Trilogia mas temos que reconhecer que o filme é esteticamente muito envolvente com uma fotografia nocturna muito inspirada do director de fotografia polaco Miroslaw Baszak (menção especial para a cena poderosa onde os zombies atravessam o rio que os separa da cidade). Romero não perdeu em nada o seu imparável sentido da atmosfera e o seu filme é altamente claustrofóbico e impregnado de um sentimento de caos constante que não pode senão perturbar.


Onde Romero também faz a diferença com toda a tendência actual das produções americanas, onde é vital contar tudo a correr sob pena do espectador menos exigente se aborrecer, é precisamente no ritmo em que conta a sua história. Juntando-se assim a um John Carpenter, também ele mestre do filme de terror, Romero leva o seu tempo para introduzir as suas personagens e desenvolver os seus acontecimentos, fazendo um filme old school que nos vem lembrar o que a palavra cinema quer realmente dizer. Há portanto espessura dramática, vários níveis de leitura, acção, suspense, sustos neste “Land of the Dead”, e claro muito gore, o que é muito satisfatório, tratando-se de um filme de estúdio. Não há dúvidas que sentíamos profundas saudades destas imagens, que só Romero é capaz de fazer, com festins de vísceras e corpos dilacerados, sempre com novas maneiras de matar e com maquilhagens impecáveis de Greg Nicotero e a sua equipa.

Com a expectativa criada pelo novo filme de zombie de George Romero, haverá sempre aqueles que acharão que “Land of the Dead” é inferior aos filmes anteriores da Trilogia mas, se podemos apontar alguma fraqueza de certos actores ou personagens, uma duração demasiada curta em relação à densidade das temáticas abordadas, um pouco menos de gore ou ainda um pseudo happy-end, finalmente nada consegue atenuar o total sucesso do novo filme de Romero cujas ferocidade e inteligência ganham em todos os níveis. Perfeitamente inserido na saga, “Land of the Dead” merece portanto sem sombra de dúvida o seu lugar no que se transformou agora numa Tetralogia essencial da história da 7ª Arte.

04-09-2005