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domingo

"Ghost in the Shell 2: Innocence": visões futuras do presente


Ano: 2004
Realização: Mamoru Oshii
Argumento: Mamoru Oshii, adaptação do manga de Masamune Shirow
Fotografia: Miki Sakuma
Montagem: Sachiko Miki, Chihiro Nakano e Junichi Uematsu
Música: Kenji Kawai
Elenco: Akio Ohtsuka, Atsuko Tanaka, Kôichi Yamadera, Tamio Ôki e Yutaka Nakano 


Apesar de ser o autor de vários dos filmes mais importantes dos últimos anos, nomeadamente no campo da ficção científica, Mamoru Oshii continua desconhecido do grande público, comparativamente com Hayao Miyazaki por exemplo, mas faz parte dos melhores animadores da história. Oshii é efectivamente mais marginal do que os seus ilustres compatriotas como o já citado Miyazaki ou ainda Katsuhiro Otomo (genial pai de “Akira” e “Steamboy”), Yoshiaki Kawajiri e Shinichiro Watanabe, entre outros. Apresentando-se como um revolucionário da 7ª Arte, Mamoru Oshii, que também já realizou alguns filmes live (como a obra-prima “Avalon”), sempre procurou explorar os limites do media cinema, tanto em termos visuais como em termos temáticos, tendo na mente um objectivo primordial, o de fazer imagens com sentido.
 
 
Quem acompanhou a sua carreira, sabe que as obras do cineasta são complexas e difíceis de apreensão, seja “Angel’s Egg” (uma reminiscência deste “Innocence”), os 2 primeiros filmes da série “Patlabor” (modelos supremos de política-ficção misturada com ambiente mecha) ou os conhecidos “Ghost in the Shell” e “Avalon”. Estes últimos são sem dúvida dois dos filmes mais importantes da história do cinema tout court a tratar da realidade virtual (termo simplista quando se vê os filmes) e por conseguinte da identidade do ser humano e do seu futuro. Aliás, é conhecida a influência do primeiro “Ghost in the Shell” sobre o cinema de James Cameron, por exemplo, e sobretudo sobre os Irmãos Wachowski e o seu sucesso interplanetário, a Trilogia “Matrix”, que deve quase tudo ao filme de Oshii.

Dito isto, só podia ser com alguma febrilidade que os amantes de cinema exigente e deslumbrante esperavam por este “Innocence” e o menos que se pode dizer, é que este último filme do visionário Oshii é sem dúvida mais um passo em frente para o cinema de animação e para o cinema de ficção científica, e que será difícil ir mais longe nos tempos mais próximos.

Ficção científica premium

“Innocence” não é uma verdadeira sequela de “Ghost in the Shell”, pelo menos no sentido habitual da palavra que pressupõe recuperação do visual, dos temas e das personagens do filme anterior. O primeiro filme é quase um pretexto para Oshii ir agora para outras direcções, ainda mais profundas e abstractas, atingindo um patamar que francamente era legítimo encarar como inatingível.

Apesar de uma história central que se aparenta a uma trama simples de investigação policial, “Innocence” não se parece com nada que tenhamos visto ultimamente e consegue a aposta sensacional de transmitir os seus propósitos quase exclusivamente pelo poder hipnótico das suas imagens. Filme sensorial que faz vibrar o nosso intelecto através da estimulação dos nossos sentidos, “Innocence” fala-nos de forma visceralmente pessimista do que nós, seres humanos, fomos, somos e seremos, se a nossa evolução continuar por este rumo que nos levará direito para um abismo sem fundo.


As múltiplas referências a Descartes e a Julien Offray através da teoria do Homem-Máquina, ao “Locus Solus” de Raymond Roussel ou ainda à “L’Eve Future” de Villiers de L’Isle-Adam, com o recurso ao uso de citações pelas personagens (influência directa do cineasta Jean-Luc Godard, dixit Oshii himself), servem sobretudo para nos perdermos num filme que mais parece um sonho, sendo que também estimulará os mais eruditos. Mas não será necessário conhecer estas referências filosóficas para apreciar todos os níveis de leitura do filme (se bem que várias visões do mesmo revelarão novas riquezas a cada vez), porque a penetração total da imagem na nossa mente e no nosso corpo opera com tanta força que de forma intuitiva a mensagem de Oshii nos impregna profundamente.

Essa vertente puramente intelectual é então transcendida pelo trabalho titânico de minúcia e perfeccionista efectuado na imagem por Mamoru Oshii e a sua equipa. O mix entre a 2D e a 3D nunca foi tão perfeito e é na quantidade de pormenores que cada fotograma carrega que se encontram as chaves desta fascinante reflexão no centro das contradições de um ser humano cada vez menos humano.

Realidade virtual vs. virtualidade real

Com o seu ambiente a fazer passar a cidade de “Blade Runner” por uma cidade de luz e a sua fronteira cada vez mais ténue entre humanos e andróides, Oshii utiliza os temas habituais da ficção científica e leva-nos para recantos da nossa essência ainda não explorados, fazendo da trilogia “Matrix” um filme para crianças. Com a mesma temática da manipulação, Oshii não utiliza esse tema como mero artifício narrativo e põe em correspondência a imagem do fantoche e aquele que puxa os seus fios com um ser humano cada vez mais obcecado pela sua imagem, desinteressando-se progressivamente pela sua própria existência. O recurso constante à temática do espelho e do seu reflexo vem mostrar como o Homem tem uma necessidade de fazer as coisas à sua imagem (os andróides assassinos da história) ou projectar-se em outras entidades aparentemente mais perfeitas do que ele (a analogia com os nossos actuais jogos de vídeo, heróis de blockbusters de cinema ou outros reality shows patéticos é aqui evidente), fazendo com que procure essa manipulação através de qualquer artifício tecnológico como um joystick, um rato, uma consola, etc., e transformando assim a realidade virtual em verdadeira realidade.

Esta visão negra da nossa evolução parece não ter escapatória e só a personagem do Major Kusanagi (o final do primeiro filme ainda está em todas as memórias) ganha um estatuto positivo, no sentido que atingiu um patamar de unicidade identitária satisfatória, tendo-se transformado em puro espírito liberto de qualquer preocupação material. Em “Innocence”, a humanidade está, portanto, em perdição e os robôs, no qual os humanos projectam inconscientemente as suas almas, hipnotizados que estão pela sua imagem, são portanto bem mais vivos e conscientes, mas isso tudo não passa de uma ilusão, porque, vítimas de um mesmo mau estar, esses robôs concebidos à nossa imagem acabam por se suicidar (não sem um último “ajuda-me” aterrador), restando-nos apenas um vazio eterno para o qual o Homem parece caminhar inexoravelmente.


Mamoru Oshii fez então do seu “Innocence” (podem notar toda a ironia e ambiguidade do título) uma obra ambiciosa, soma da sua formidável e iconoclasta carreira, que reconcilia literatura filosófica, ficção científica, cinema e arte pictural num momento único, que nos acompanhará sem dúvida para sempre. Oshii prova aqui, se é que ainda era preciso, que a animação não é de forma nenhuma uma arte menor mas, bem pelo contrário, um meio de potencialidades ainda mais vastas do que o cinema live quando posto ao serviço de um autêntico projecto visionário. É simples, não tínhamos visto nada assim desde o inesquecível "2001: Uma Odisseia do Espaço" do grande Stanley!

Mas chega de palavras, “Ghost in the Shell 2: Innocence”, à semelhança da obra-prima de Kubrick, desafia qualquer análise crítica tradicional e necessita ser vivido, livre de entraves, para ser assimilado física e psicologicamente. Sem dúvida um filme exigente, mas a recompensa não tem preço. “Innocence” e Mamoru Oshii já fizeram história, nada menos!

19/03/2006

1 comentários:

mauro pena disse...

Sim, concordo com tudo que você disse. Innocence é daqueles filmes que se tem guardado e assistido sempre pra aproveitar cada chance de deleitar a obra desse mestre.
Innocence é diferente a cada vez que se assiste. Num primeiro momento é estranho, depois belo, enigmático, letárgico, enfim, sempre apresenta um novo sentido. É um filme de camadas para ser explorada devagar a cada vez.
Um dos grandes filmes de sempre!
Parabéns pela postagem.